Helena ficou parada no meio da rua, segurando o telemóvel com força enquanto o coração acelerava sem controle.
A mensagem ainda brilhava na tela:
“Ele não é quem parece ser.”
Ela releu aquilo duas vezes, talvez três, tentando entender se era uma brincadeira idiota ou algum tipo de aviso real.
Quando levantou os olhos novamente, Gabriel conversava com um homem parado próximo a um carro preto estacionado do outro lado da rua.
A distância não permitia ouvir nada, mas era possível perceber a tensão entre os dois. O homem parecia nervoso. Gabriel, ao contrário, mantinha aquela postura fria e controlada que Helena já tinha notado no café.
O estranho entregou algo para ele.
Um envelope.
Gabriel guardou rapidamente dentro do casaco antes de perceber que Helena ainda estava ali.
Por um segundo, os olhares deles voltaram a se encontrar.
E, estranhamente, Helena sentiu como se tivesse sido pega observando algo que não deveria ver.
Ela desviou imediatamente e começou a andar.
Rápido.
Sem olhar para trás.
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O pequeno apartamento alugado ficava no terceiro andar de um prédio antigo perto do centro. Não era bonito, mas era silencioso, e Helena valorizava o silêncio mais do que qualquer luxo naquele momento da vida.
Assim que entrou, largou a mochila no sofá e caminhou até a janela.
A chuva tinha voltado.
As gotas deslizavam pelo vidro enquanto ela tentava afastar Gabriel dos pensamentos.
Mas não conseguia.
Havia algo nele que incomodava.
E atraía ao mesmo tempo.
Talvez fosse o jeito misterioso. Talvez os olhos cansados. Ou talvez fosse apenas a sensação absurda de que aquele homem escondia uma história perigosa.
O telemóvel vibrou novamente.
Outro número desconhecido.
Dessa vez, uma nova mensagem:
“Se quiser continuar viva, mantenha distância dele.”
Helena sentiu um arrepio percorrer os braços.
Agora já não parecia brincadeira.
Ela tentou ligar de volta.
Número inexistente.
— Que droga… — murmurou.
Por alguns segundos, pensou em ignorar aquilo tudo. Bloquear o número e esquecer. Afinal, ela tinha problemas suficientes para lidar.
Mas a curiosidade começou a falar mais alto.
E curiosidade sempre foi o pior defeito dela.
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Do outro lado da cidade, Gabriel dirigia pelas ruas molhadas sem sequer ligar o rádio.
O envelope estava no banco do passageiro.
Intacto.
Ele apertava o volante com força, claramente irritado.
O homem do estacionamento não deveria ter aparecido.
Não ali.
Não depois de tanto tempo.
Quando o telemóvel tocou, Gabriel já sabia quem era antes mesmo de olhar o visor.
— Eu disse para não me ligar — falou assim que atendeu.
A voz do outro lado parecia desesperada.
— Ela apareceu, Gabriel.
Silêncio.
— Eu sei.
— Isso significa que eles também podem encontrá-la.
Gabriel fechou os olhos por um instante.
— Ninguém vai tocar nela.
— Você não entende… se ela descobrir a verdade sobre aquela noite—
Gabriel desligou bruscamente.
Seu maxilar travou de tensão.
Porque ele entendia perfeitamente.
E era exatamente isso que o aterrorizava.
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Na manhã seguinte, Helena voltou ao café tentando agir normalmente.
O cheiro de pão quente e café recém-passado preenchia o ambiente enquanto os primeiros clientes chegavam.
Sua amiga Sofia trabalhava com ela e percebeu imediatamente que algo estava errado.
— Você está com cara de quem não dormiu nada.
Helena forçou um sorriso.
— Só estou cansada.
— Mentira. — Sofia cruzou os braços. — Mulher, eu te conheço há três anos.
Helena hesitou antes de mostrar as mensagens no telemóvel.
Sofia leu em silêncio.
Depois ficou séria.
— Isso é estranho.
— Eu sei.
— E quem é “ele”?
Helena olhou discretamente para a porta do café.
Como se o simples pensamento pudesse fazê-lo aparecer.
E quase aconteceu.
Porque naquele exato instante Gabriel entrou novamente.
Vestindo preto outra vez.
Calmo outra vez.
Bonito demais outra vez.
O coração de Helena a traiu imediatamente.
Sofia percebeu.
— Ah… então é ele.
— Cala a boca.
Gabriel aproximou-se do balcão, mas dessa vez parecia diferente. Mais fechado. Mais distante.
Como se tivesse passado a noite inteira sem dormir.
— O café de sempre? — perguntou Helena.
— Sim.
Enquanto ela preparava o pedido, sentia o olhar dele sobre ela o tempo inteiro.
Aquilo a deixava nervosa de um jeito que odiava admitir.
Quando entregou a chávena, Gabriel falou baixo:
— Você recebeu alguma coisa estranha ontem?
Helena congelou.
Os olhos dos dois se encontraram.
— Como sabe disso?
Gabriel demorou alguns segundos para responder.
Segundos demais.
— Porque não é seguro você se envolver nisso.
— “Isso” o quê exatamente?
Ele suspirou lentamente.
Como alguém tentando decidir até onde podia dizer a verdade.
Mas antes que respondesse, a porta do café abriu violentamente.
Um homem entrou completamente molhado da chuva.
Desesperado.
Assustado.
E assim que viu Gabriel, gritou:
— VOCÊ PRECISA IR AGORA. ELES ENCONTRARAM ELA.
O café inteiro silenciou.
Helena olhou confusa entre os dois homens.
Mas o que realmente a assustou foi a expressão de Gabriel.
Pela primeira vez desde que o conheceu…
Ele parecia com medo.
Curiosidade para o próximo capítulo:
No próximo capítulo, Helena descobrirá que o passado de Gabriel está ligado ao desaparecimento de uma mulher… uma mulher que talvez ainda esteja viva.

