Entre Beijos e Mentiras — Capítulo 1: O Encontro que Não Deveria Acontecer

Cláudio Armando
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Helena nunca gostou de recomeços.

Para ela, recomeçar era só uma palavra bonita para descrever o caos de ter que juntar os pedaços de algo que já foi destruído. Ainda assim, ali estava ela, dentro de um autocarro velho, olhando pela janela enquanto a cidade que conhecia desaparecia aos poucos no retrovisor da sua vida.

Ela tinha decidido ir embora sem dizer adeus a quase ninguém.

Não porque não se importava… mas porque já tinha aprendido que certos adeus doem menos quando não são ditos em voz alta.

Na mochila, levava poucas roupas, um caderno antigo e um coração cansado de acreditar nas pessoas erradas.

O novo destino era uma cidade costeira, menor, mais silenciosa, onde ela conseguiu um trabalho simples num café perto do centro. Nada glamoroso, nada promissor. Mas era exatamente disso que ela precisava: anonimato.

Enquanto o autocarro avançava pela estrada molhada pela chuva, Helena encostou a cabeça no vidro frio e fechou os olhos por um instante.

Ela não sabia, mas aquele seria o último momento de paz em muito tempo.

Gabriel, por outro lado, não acreditava em coincidências.

Ele acreditava em padrões, em lógica, em decisões bem calculadas. Era assim que ele vivia: controlando tudo o que podia, e ignorando o que não podia.

Naquela noite, ele saiu mais cedo do escritório. A cidade estava cinzenta, o trânsito lento, e a chuva começava a cair com força quando ele decidiu parar num pequeno café no centro.

Não era um lugar especial. Nunca era.

Mas naquele dia… algo foi diferente.

Quando ele entrou, o som da chuva ficou para trás, substituído pelo cheiro de café quente e o murmúrio baixo de conversas.

E foi aí que ele a viu.

Helena estava atrás do balcão, ajeitando algumas chávenas com uma calma que parecia fora de lugar naquele ambiente simples. O cabelo ligeiramente preso, algumas mechas soltas caindo pelo rosto, e um olhar distante… como se estivesse presente ali, mas com a mente noutro lugar.

Gabriel não soube explicar o motivo, mas algo naquela imagem o fez parar por um segundo a mais do que o normal.

Ela levantou os olhos.

E os dois se olharam.

Foi rápido. Normal. Insignificante… pelo menos era o que qualquer um diria.

Mas nenhum dos dois desviou imediatamente.

Helena foi a primeira a quebrar o contacto, fingindo estar ocupada com outra coisa. Gabriel apenas avançou até ao balcão e pediu um café preto.

— Forte? — perguntou ela, num tom automático.

— Sempre — respondeu ele.

Houve um silêncio estranho enquanto ela preparava o café. Não era desconfortável… mas também não era natural. Era como se o ar tivesse ficado mais pesado sem motivo.

Quando ela colocou a chávena à frente dele, os dedos quase se tocaram.

Quase.

Mas não tocaram.

— Você não é daqui — disse ela, sem pensar muito.

Gabriel levantou o olhar.

— Dá para notar?

— Dá — respondeu ela, com um leve sorriso. — Pessoas daqui não olham como se estivessem a fugir de alguma coisa.

A frase ficou no ar por um segundo a mais do que devia.

Gabriel não respondeu imediatamente. Em vez disso, observou-a com mais atenção.

— E você? — perguntou ele por fim. — Está a fugir de algo?

Helena riu, mas não foi um riso verdadeiro.

— Todo mundo está a fugir de alguma coisa.

Essa resposta encerrou a conversa… mas não encerrou o impacto.

Porque, naquele instante, nenhum dos dois percebeu que aquela troca simples de palavras já tinha começado a mudar alguma coisa invisível entre eles.

Mais tarde, quando o turno dela terminou, Helena saiu do café pela porta dos fundos. A chuva tinha parado, mas o chão ainda estava molhado, refletindo as luzes da rua como pequenos fragmentos de outra realidade.

Ela deveria ir direto para casa.

Mas não foi.

Parou por um instante na esquina, respirando fundo, como se estivesse tentando entender por que aquele encontro simples ainda não tinha saído da sua cabeça.

Do outro lado da rua, Gabriel também saiu.

Ele não tinha motivo para continuar ali.

Mas também não foi embora imediatamente.

Os dois estavam no mesmo lugar, ao mesmo tempo, sem saber que aquele momento era apenas o início de algo muito maior… e muito mais complicado do que qualquer um deles poderia imaginar.

Helena finalmente começou a andar.

E foi nesse exato instante que o telemóvel dela vibrou.

Uma mensagem de um número desconhecido.

Sem nome.

Sem contexto.

Apenas uma frase:

“Ele não é quem parece ser.”

Ela parou no meio da rua.

E quando levantou os olhos… Gabriel já não estava mais sozinho na esquina.

Havia alguém o observando de longe.

Alguém que ela não conhecia.

Alguém que, naquele momento, já sabia mais sobre o futuro dos dois do que eles próprios.

Curiosidade para o próximo capítulo:

A mensagem no telemóvel de Helena não foi enviada por acaso… e o nome de quem a enviou está diretamente ligado ao passado que Gabriel jurou nunca mais revelar.


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